Brasileiros injetam R$ 1,13 trilhão em dólares digitais desde 2019
Dados da Receita Federal revelam que as stablecoins dominam o mercado de criptoativos no país. Para quem cobra dívidas, o número escancara a principal rota usada para blindar patrimônio e dolarizar valores fora do sistema bancário tradicional.
A rota do dinheiro
Os números da Receita Federal divulgados em junho mostram para onde o dinheiro está indo. Desde agosto de 2019, quando a declaração de criptoativos virou regra, o Brasil registrou R$ 1,58 trilhão em operações. Desse volume, R$ 1,13 trilhão (71,7%) foi parar em stablecoins — tokens pareados em moedas tradicionais, quase sempre o dólar.
O uso desses ativos saltou de 3,5% no primeiro ano para até 80% nos últimos dois anos. Quase nove em cada dez reais nesse mercado passam por um único token atrelado à moeda americana. Na prática, o brasileiro parou de tratar cripto apenas como aposta de valorização, como o bitcoin, e passou a usar o sistema para abrir contas em dólar não oficiais.
Regras do jogo
O mercado passa por um filtro. Até o final de outubro, as corretoras que decidirem ficar no Brasil precisam pedir autorização ao Banco Central. Quem presta serviço de guarda, intermediação ou negociação e não solicitar a licença terá que fechar as portas. Só neste ano, pelo menos quatro empresas anunciaram o fim das operações no país.
A regulação começou pelas empresas, definindo capital mínimo e controles, mas o token em si continua sem dono. O Banco Central admite que as regras sobre quem pode emitir a moeda e onde fica a reserva só devem clarear no ano que vem. Por enquanto, os pagamentos com stablecoins seguem as regras do mercado de câmbio. Uma trava já está definida: a partir de janeiro de 2027, transferências acima de US$ 10 mil para carteiras próprias ou para o exterior poderão ficar retidas por até 24 horas.
O que isso significa na execução
Para o advogado que rastreia patrimônio, a conversão em stablecoins é o caminho mais rápido que o devedor encontra para dolarizar o caixa e tirar o dinheiro da reta do Sisbajud. O presidente do Banco Central já confirmou que a maior parte desse fluxo serve como meio de pagamento, muitas vezes para o exterior.
A caçada muda de figura dependendo de onde o ativo está guardado. Se o devedor usa uma corretora autorizada pelo BC, a plataforma responde às autoridades brasileiras e o bloqueio judicial via ofício funciona. O problema é a autocustódia. Quando o devedor transfere as stablecoins para uma carteira própria, a chave do cofre fica apenas com ele. O dinheiro sai do alcance de ordens judiciais simples, exigindo do credor estratégias mais complexas de rastreio de blockchain e quebra de sigilo para provar a ocultação.
O devedor encontrou na stablecoin rapidez, custo baixo e acesso internacional. O credor precisa entender que o dinheiro não sumiu, apenas mudou de forma e de endereço.
Fonte: bitnoticias.com.br
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